• Lampião a Gás

Aleluia


O pastor estava quase pronto para a sua pregação. Havia escolhido o salmo perfeito para a realização do culto daquela noite, palavras que com certeza abririam ainda mais a carteira de seus fiéis e traria mais “graças” ao seu próprio bolso.


Terminou de alinhar sua gravata cinza no pescoço, fechou seu terno azul escuro, pegou sua bíblia e se dirigiu para a o púlpito com um sorriso levemente sádico no rosto. “Hoje não saio com menos de vinte mil”.


Tomou sua posição e viu a sua frente centenas de fiéis que aguardavam ansiosamente por suas palavras de conforto e paz. Cumprimentou a todos de forma amistosa e começou sua oratória trazendo aquilo que ele dizia ser a palavra do Senhor. Conforme a pregação avançava, seu tom de voz ia aumentando, bradando os feitos bíblicos e gritando aleluias no meio do discurso, sendo respondido por um coro que repetia a mesma palavra. Quando terminou de recitar Malaquias, capítulo três versículo dez, ordenou aos irmãos obreiros que começassem a coleta do dízimo, vendo cada um dos fiéis entregando as quantias de dinheiro bem mais fartas do que costumeiramente eram.


Tudo corria bem quando as luzes começaram a piscar dentro do templo, um vento forte começou a soprar do lado de fora e a temperatura do local caiu drasticamente. Uma figura alta, loira, com olhos verdes e vestes impecáveis surgiu na porta de entrada da igreja, tinha um conjunto de terno, calça e sapatos brancos, com uma gravata preta em destaque no seu pescoço, cabelos lisos e penteados para trás. Uma figura angelical em trajes contemporâneos.


O obreiro-líder daquele culto percebeu que ele, e apenas ele, estava vislumbrando tal imagem e começou a pregar novamente.


- Irmãos, a graça dessa noite é tanta, que estou vendo um anjo entrando em nossa casa. Senhor, como é linda a sua presença.


O ser iluminado começou a andar culto a dentro se dirigindo para a primeira fileira, estendeu a palma aberta na lateral do seu corpo e tirou os pés do chão, flutuando acima dos fiéis e derramando sobre eles uma luz branca e pálida, que fazia com que pequenos fios ligassem o topo da cabeça deles com a palma de sua mão.


- Meu querido rebanho, ele está nos abençoando com sua luz divina e nos banhando em glória. Ele voa sobre nossas cabeças e nos ilumina. ALELUIA!


O coro respondeu ao grito de forma fervorosa, quase como um canil respondendo ao comando de seu adestrador. Pessoas começaram a cair no chão e se estrebuchavam, uma baba branca e espumante escorria de suas bocas, a cada metro corrido pelo anjo fazia com que aqueles pobres mortais agissem de forma fervorosa e estranha, girando em seu próprio eixo, falando palavras desconexas e fazendo gestos bizarros com suas mãos. O Pastor sentia seu coração bater na garganta, uma euforia incontrolável tomava conta de sua mente e fazia seu corpo estremecer.


- Ele é lindo, é um ser criado por Deus! Está jogando suas bençãos sobre cada um de nós. Sintam o poder de Deus fluir sobre cada um de nós. Nossas mulheres, nossas crianças, nossos varões, todos eles sendo agraciados pela glória divina.


A cada instante, mais e mais fios se ligavam a palma daquela criatura celestial chegando a formar uma pequena esfera luminosa. Quase toda a congregação estava em euforia, tomados pela energia e pelo poder do ser invisível aos seus olhos.


- Este anjo é a prova da força divina! ALELUIA! – não houve resposta desta vez, quando menos percebeu, todo seu rebanho estava ocupado fazendo algo. – Este anjo é a mensagem de Deus falando que é nessa igreja que mora o espírito santo.


O ser todo de branco se virou para o orador e começou a flutuar em sua direção. O homem não conseguia conter sua emoção, suas mãos tremiam e mal tinham firmeza para se manter de pé, a euforia de ver aquela presença imensa tomava cada fibra do seu ser. Com o pouco de firmeza que tinha, decidiu adiantar o encontro com o anjo e tentou andar na direção dele, mas seu corpo não respondia, não para aquela direção. Um formigamento em todo seu corpo lhe passava um recado, mas sua mente estava tão presa naquela imagem, que não conseguia captar o que era. Ele suava frio e tinha dificuldade de respirar, sua ansiedade estava no pico. Mas seu corpo insistia em não se aproximar da figura santa. Caiu de joelhos com as mãos estendidas na direção do ser iluminado.


- Este anjo é a minha salvação. Este anjo é minha glória. Este anjo é...


Um estrondo aplacou todo o culto. Portas e janelas se fecharam de uma só vez, todas as lâmpadas do local estouraram e o barulho de vidro se estilhaçando ecoou. Somente uma fonte de luz existia ali, uma lâmpada amarelada e fraca sobre a cabeça do pastor.

Foi aí que entendeu tudo, o que sentia não era euforia, era medo. O formigamento não era de ansiedade, era seu corpo gritando para sair dali. As lágrimas em seus olhos não eram de alegria, mas sim de pavor.


Tudo estava em um breu sem fim, só conseguia ver poucos metros a sua frente.

Reparou que tudo estava quieto, não se ouvia nada além de sua respiração. Olhou para o chão e viu um liquido espesso e rubro escorrer e invadir o local iluminado. O barulho de um riscar de fósforo quebrou o silêncio e uma breve chama rasgou por alguns segundos o breu. Passos vagarosos ecoavam de toda as direções, o som abafado de algo úmido sendo pisado trazia cada vez mais aflição ao pastor. Um ser adentrou a região iluminada, vestindo um conjunto de terno, calças e sapatos pretos, uma gravata vermelha em destaque em seu pescoço, óculos redondos e escuros, uma barba espessa e escura sob o queixo e em sua boca um cachimbo, soltando um fio de fumaça de seu fornilho, tomando o ambiente com o cheiro de tabaco.


Com a voz trêmula, quase que num sussurro, o pastor terminou sua frase.


- Este anjo... é o Diabo.


A lâmpada sobe sua cabeça estourou, sentiu a escuridão engoli-lo por completo e com ela, sua vida.


Por Ítalo Guimarães

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