• Lampião a Gás

Charlie Curcio, um batalhador incansável!


Charlie Curcio é um nome bem recorrente e conhecido para quem tem a mínima intimidade com o cenário da música pesada. Batalhador incansável do Underground, seja através da sua banda, Stomachal Corrosion, ou através de ações e divulgações que levem o legado do Heavy Metal a quem se interessar.


Sua mais recente empreitada foi o livro “Ainda... Uma Vida em um Meio”, autobiográfico onde ele relembra sua vida cheia de casualidades. Do relato sobre o adolescente impregnado pelo Rock por uma prima, os entreveros de uma vida com poucas expectativas e a batalha do dia a dia do menino que se tornou homem e continuou sendo fiel as suas verdades, crenças e objetivos.


Tive uma conversa informal com Charlie, e essa, se não amanheceu, entrou madrugada adentro, e me mostrou o lado humano e batalhador de um cara que aprendi a respeitar só por ser quem é. Com a palavra o senhor Charlie Curcio.


Lampião a Gás: Vou começar perguntando quando foi que você migrou de músico para escritor?

Charlie Curcio: Na verdade eu não saí do meio musical e entrei no literário. Eu continuo tocando e sempre escrevi em fanzines e blogs. A minha autobiografia realmente foi meu primeiro lançamento em livro físico. Mais por interesse do amigo Rômulo Pitombeira, do Ceará, que demonstrou interesse em lançar este livro autobiográfico. E tem o plano de uma biografia sobre minha banda, Stomachal Corrosion, ainda sendo escrita por mim mesmo, mas sem nenhuma previsão de lançamento.


LAG: Sei livro foi lançado no meio de uma pandemia, com isolamento social e poucas perspectivas desse quadro se reverter pelos próximos meses, isso de alguma forma fez você repensar a data de lançamento?

Charlie: Na verdade, o quadro de paradeiro, ajudou para adiantar e finalizar o texto. Tudo foi feito via e-mail. E os livros são enviados pelo correio, o que mais tem ocorrido no mundo todo justamente devido à pandemia. E esse livro demorou muito para sair.


LAG: Falar sobre si mesmo desperta sentimentos adormecidos e até esquecidos, escrever deve ser algo mais intenso. Como você lidou com esses sentimentos que vieram à tona enquanto você escrevia?

Charlie: Sempre é estranho tratar de si mesmo. E em um livro autobiográfico fica mais complicado pela exposição de assuntos pessoais e até familiares. Mas pensei sobre estas partes apenas, o resto são histórias como bate papo de mesa de bar. Aventuras e momentos bons e ruins da vida, o que ocorre com todo mundo. Contar como começamos a ouvir música pesada e as evoluções no meio, as bandas e essa parte musical, a gente acaba contando sempre mesmo. Essa autobiografia é algo bem comum com uma cara própria. Não sei ficou claro.


LAG: Você certamente aproveitou essa escrita e fez um exame de consciência sobre a sua própria história, qual foi a conclusão e o que mudou dentro de você com isso?

Charlie: Na verdade, não cheguei à conclusão nenhuma e nem fiz algo sobre conscientização. Apenas fui escrevendo o que ainda lembro de maneira natural. Alguns comentários de pessoas que leram a autobiografia é que acabaram me situando sobre como foi e tem sido a minha vida, uma luta constante em um meio injusto moldado por pessoas que na sua maioria não fazem nada além de fomentarem críticas, boicotes e perseguições algumas vezes até exageradas. Passei por tantas situações em minha vida que acabei ficando daquele tipo que dizem: nada mais me surpreende, dada a capacidade de foder e ser desonesto com os demais por parte de pessoas mentirosas, cínicas e sem coração.


LAG: Você lançou seu e dias após o governo anunciou um aumento de imposto sobre os livros na cada de 12%, qual a sua opinião sobre isso?

Charlie: Opinião sobre decisões governamentais? Não há nada além do que revolta. Enquanto em países livros são itens culturais e isentos de impostos, aqui no Brasil é mais uma fonte de renda para esta escória estatal. É revoltante e me irrito com essa gente do Governo maldito. Nojo eterno.


LAG: Você acredita que uma reavaliação tributária e de incentivos na cultura, seriam, por si só uma alavanca para mudanças mais profundas em nossa sociedade?

Charlie: Eu trabalhei por quase dois anos na maior loja da rede da Livraria Leitura, no Minas Shopping, em BH. Ainda se vende muito livro. Claro que com isenção de impostos, os insumos ficam mais acessíveis e os valores caem, o que, junto ao marketing, fomenta as vendas e procuras pelo material físico. Mas, me parece que há uma campanha para tentar passar que o brasileiro não lê livros, que o mercado do físico morreu. Eu trabalhei por anos na Cogumelo Records e foi eu que criei o site atual, Instagram e página do Facebook, acompanhava as vendas diárias. Há muita gente adquirindo e lançando material físico sim. Sempre corri fora das modas e tendências, portanto nunca acreditei apenas por acreditar no que se brota por aí de informações falsas. E, volto a dizer, se os impostos caíssem no que é dado como cultural, muita coisa melhoraria. Mas é interesse do sistema político e religioso tocar um povo gado e assim vem sendo há décadas. Infelizmente. Por sorte, no povo existem os que resistem.


LAG: Em sua banda você sempre defendeu a liberdade de uma forma generalizada, você acha que nosso povo estaria preparado para ter essa liberdade sem amarras?

Charlie: Não é referente ao brasileiro, a falta de consciência e respeito com as liberdades é pertinente do ser humano. Quando se vê pessoas do povo defendendo regimes de governo e pessoas que os explore, é mais um sinal de que a humanidade ainda se delicia em ser controlado.


LAG: Então podemos afirmar que essa necessidade de controle, alimenta a maldade que também é inerente ao ser humano?

Charlie: Com certeza. Se uns se passam por capachos, sempre haverá quem aproveite para explorá-los. Há quem diga defender a democracia e liberdades, mas idolatra ditadores. E os governos o que fazem? Sugam a todos nós por igual.


LAG: Hoje, você consegue vislumbrar um futuro digno para o Brasil?

Charlie: Com esse quadro político cada vez pior e ainda contando com o apoio de parte da população sempre? Uma bagunça administrativa difícil de entender. E com essa pandemia? O futuro é apenas o amanhã do dia de hoje.


LAG: Mudando da água para o vinho, o Stomachal Corrosion é um dos maiores expoentes do Grind Core do Brasil, o que te levou a optar por este estilo?

Charlie: O impacto que tive com as bandas iniciantes do estilo no final dos anos 80 e começo dos 90. Eu vinha de bandas Punks e Metal, o Grind Core era o que eu estava assimilando. Os conceitos anárquicos do gênero me atraíram, por eu já estar inserido no contexto cosmopolita. Tudo se encaixava. Revolta, velocidade, agressividade sonora e as amizades feitas por cartas. Amizades algumas que tenho até hoje. Aprendi a amar o meu ódio.



LAG: Eu vejo que existe muito mais amizades e interações sociais no Hard Core e Grind Core do que nos demais estilos da música pesada aqui no Brasil, além de ser explicito o apoio dessa cena por suas bandas e representantes, como você vê essa relação e na sua opinião, qual seria a razão desse apoio irrestrito?

Charlie: Não existe uma resposta para isso. Talvez pelo fato de que no meio Punk, HC e Grind existam cooperativas de lançamentos, organizações de gigs e o envolvimento com posicionamentos e ideologias como anarquismo e outras ações, o que levam a reuniões, coletivos e mais união mesmo. Vejo tudo isso muito natural.


LAG: Essa conexão de ideias e ações, talvez seja o que falta para reacender a paixão por outros segmentos da música pesada?

Charlie: Estas ações dependem muito das pessoas que compõem cada nicho. Eu sempre circulei em vários meios e grupos da música pesada e há distinções claras em cada um. Se em uma galera rola união e cooperação, em outro talvez seja natural o individualismo. Se em um rola um nível de conscientização nutrida por décadas, formada em várias ações junto a outros grupos sociais, em outro ainda caminha se nutrindo em achismos e cobranças torpes e exageradas, chegando a ter pouco sentido até mesmo pela falta de embasamento e compreensão. É tudo muito relativo.


LAG: Em seu livro você cita um tributo ao Stomachal Corrosion, em que pé andam os planos para que isso aconteça?

Charlie: Esse CD de covers já era para ter saído há anos, mas algumas bandas foram pedindo para eu esperar suas gravações e assim vem se arrastando. Agora o projeto está parado, por conta da corona vírus que impossibilitou a última banda de finalizar sua gravação. A banda é o Omago, do Chile.


LAG: Fale-nos sobre os próximos planos da Stomachal Corrosion e do Charlie escritor.

Charlie: Rapaz, se conseguirmos ao menos voltar a ensaiar, já seria uma boa. Temos uns convites para alguns splits. Mas tudo para o ano que vem. E na parte literária, tem a biografia do Stomachal Corrosion que estou iniciando.


LAG: Muito obrigado pela entrevista, agora o espaço é seu para suas considerações finas e para deixar uma mensagem aos nossos leitores.

Charlie: Eu que agradeço, JP. Obrigado pelo espaço e apoio de sempre! Quem interessar pelo CD do Stomachal Corrosion ou a minha biografia, é só me procurar. Acreditem em vocês mesmos. Sejam felizes.


Por: JP Carvalho

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