• Lampião a Gás

Divindade bipolar


Alguns assuntos parecem ser proibidos de serem tocados, a ponto da chuva de pedras e ofensas começar imediatamente após qualquer citação nesse sentido.

Um deles trata da figura do Jesus histórico (esse mesmo o Cristo), que por sinal só não é mais famoso que o quarteto de Liverpool...


Jesus Cristo possui uma importância inegável na civilização ocidental. Basta citar que nossa era é contada como “anno Domini” ou “depois de Cristo”, como se o advento do seu nascimento fosse o marco mais importante da história da humanidade. Segundo as escrituras sagradas, o Salvador veio ao mundo para livrar o mundo de todos pecados.


Mas, espere, alguém já se perguntou se o conteúdo destas escrituras é realmente razoável? Na verdade já. Em seu livro intitulado “Jesus viveu na Índia” [1], Holger Kersten apresenta evidências dessa tese, o que de certa forma coloca em xeque a doutrina de que Jesus tenha morrido na cruz, e portanto não poderia ter ressuscitado ao terceiro dia, etc., etc., etc. O que é conhecido como o Novo testamento é um apanhado de textos de origem mais que duvidosa, os quais por sua vez foram traduzidos precariamente de línguas arcaicas. O problema é que um errinho de tradução ou de interpretação pode levar as pessoas a, literalmente, se matarem. Segundo Holger, a doutrina não deveria nem ser chamada de cristianismo, uma vez que boa parte dos costumes e tradição cristã foram na verdade introduzidos por Paulo – então o mais correto seria tratar de Paulismo. Ainda, há que defenda que Jesus nunca pregou nada disso e era na verdade contrário ao estabelecimento de qualquer instituição religiosa.


E após séculos de transcrições dos textos sagrados, parece ainda haver algo em torno de uma centena (ou um pouco mais) das primeiras cópias dos textos originais, que por sua vez foram escritos por escribas diferentes. O que a igreja não revela é que não há concordância entre essas cópias... Então, como chegou-se a essa versão da “Holy Bible”, que indústria de ‘entretenimento’ Hollywoodiana insiste incluir em qualquer filme que apareça um tribunal e onde as testemunhas são obrigadas a colocar a mão sob pena de arder no inferno caso a verdade não seja dita? Junte a isso o fato de que várias parábolas são encontradas em textos anteriores à bíblia, como por exemplo o Livro dos Mortos dos Egípcios e podemos perceber a extensão da cortina de fumaça que nos foi enfiada goela abaixo por séculos e séculos. Veja como exemplo o natal – o que estamos celebrando mesmo? Textos anteriores descrevem eventos de impressionante similaridade aos eventos conhecidos do nascimento do Salvador. Teria essa história sido aproveitada de civilizações passadas e vestida de nova roupagem?


Enfim, os doutrinados parecem não perceber a incoerência entre o velho e o novo testamento. No antigo testamento, um Deus enérgico e cheio de raiva experimenta sua criação ordenando tarefas bizarras e lançando raios sobre aqueles que possuírem conduta errônea. Já no novo o mesmo Deus envia o Salvador para trazer as boas novas e espalhar a mensagem de amor irrestrito. O que mudou do antigo para o novo testamentos que nos faz concluir que o criador tem um caso grave de comportamento bipolar? E cada religião vai reclamando para si a verdade absoluta sem se preocupar com a incoerência e irracionalidade dessa proposição [2].


Por: Alberto Fracassi - Março 2019

Referências [1] Holger Kersten, Jesus viveu na Índia: a desconhecida história de Cristo antes e depois da crucificação, 23a edição, Editora Best Seller, Rio de janeiro, RJ, Brazil, 2006. [2] Mike Hockney, The God Game, Hyperreality Books, 2012.

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