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Entre Tolkien, política e religião - Por que as pessoas apenas não leem um livro?


Lá estava eu navegando tranquilamente pela internet, e vi uma postagem de um grande amigo: a notícia que um deputado federal do Ceará que quer tornar o dia 25 de Março como o Dia de Ler Tolkien no Brasil. Até aí, tudo bem, nada demais (embora eu veja que o país necessite muito mais de uma educação pública de nível para as pessoas poderem ler, entender e assimilar o trabalho de J. R. R. Tolkien). Mas bastou ler um pouquinho mais da notícia, e pronto: já se misturam política, religião e sei lá mais o que.

Meu questionamento é simples: para que mencionar os outros aspectos?


Sério: nem imaginava que na eleição de 2018, alguém havia usado memes eleitorais colocando candidatos como alguns personagens do “legendarium” da Terra-Média. Aliás, em termos literários, acho isso um ato blasfemo.


Leio muito, e desde muito jovem. E óbvio que aproveitei para ler os livros de Tolkien em 2001, precedendo o lançamento de “A Sociedade do Anel”. A única coisa que fiz já tendo lido “O Silmarillion” umas 4 vezes (“O Hobbit” li duas, e a trilogia “O Senhor dos Anéis” apenas uma, pois a mesma me é enfadonha) foi traçar similaridades com lendas e mitologias europeias. De resto, nem por um segundo olhei Bilbo, Aragorn, Frodo, Sam ou Gandalf como algum político que seja. Pelo contrário: vejo-os muito distantes dessa realidade. E o que faz isso é um fator simples: estes personagens, mesmo com seus defeitos humanos, são honestos e honrados.


Quando se fala no aspecto religioso, então, é pior ainda.


O cristianismo não é muito afeito a misturas com lendas e mitologias. Embora Tolkien fosse católico, muitos elementos em seus livros seriam capazes de deixar muitos religiosos de cabelos em pé. E embora algumas vertentes não sejam contra a leitura, outras devem falar cobras e lagartos do mundo da Terra-Média. Aliás, não me surpreenderia alguém chamar os livros de Tolkien de “coisa do capeta” (acho que já ouvi, mas não tenho certeza). No fundo, tem horas que parece que querem puxar a coisa para o lado que mais convenha a alguns. Novamente: apenas uma educação melhor pode fazer com que as pessoas leiam e compreendam o universo de fantasia de Tolkien.


Por que bater na tecla da educação: por favor, perdoem este autor, mas jovens das classes menos favorecidas dificilmente conseguem ter acesso a este universo. Os livros não são baratos (lembrando que o atual governo ainda contribuiu para ficarem ainda mais caros). Se falar em downloads ilegais, além de crime, vem a pergunta: como alguém que sofre para sobreviver todos os dias pode pensar em computadores, tablets ou celulares de ponta? Chega a ser ofensivo falar nisso, e dói o coração de quem ainda tem algo de humano a ponto de se importar com o outro. Não sei o de vocês, mas o meu dói, e não é pouco. Os de políticos e seus seguidores, não, pois deixaram de ser humanos há tempos...


Que tal o deputado e seus seguidores pensarem em ajudar a educação do Brasil a melhorar de nível? A levar adiante o projeto da federalização do ensino do país adiante? De colocar na cadeia todos os que desviam verbas da área? Aliás, um ótimo questionamento, já que, conforme noticiado, o MEC planeja um corte de 18% nas verbas. Era a hora de reformar completamente a educação! E reforma séria, nos moldes que o finado Anísio Teixeira pensava!


Nisso, cria-se a percepção que tal projeto está sendo sensacionalista, que visa agradar aqueles que são apaixonados pela literatura tolkeniana. Eu sou, mas desprezo este projeto por vê-lo com algo desnecessário em vista de coisas muito maiores.


Diante dessa paranoia política/partidária, polarizada entre o “e daí” e o “ainda bem”, querer colocar Tolkien no meio é fazê-lo de escudo para seus pensamentos. Por que não deixam o bom velhinho descansar em paz e colocam o próprio traseiro na reta, hein?


Se quiser, leia e aprecie; se não quiser, não leia. Agora, fazer esse tipo de coisa é no mínimo um despeito com um país historicamente tão judiado...


Por Marcos Garcia

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