• Lampião a Gás

Eu me lembro


Eu me lembro daquela noite, uma chuva torrencial caia lá fora.


Me lembro que discutimos sobre alguma besteira e perdemos a razão um com o outro. Xingos, ameaças, e gritos se misturavam ao chiado da tempestade lá fora, deixando tudo ainda mais tenso.


Me lembro que no ápice das emoções, você pegou o vaso da estante e arremessou contra mim. Por muito pouco não me acertou, mas o barulho do objeto se estilhaçando contra a parede foi o suficiente para que eu chegasse no meu limite e, antes que eu fizesse alguma besteira maior ainda, pegasse minha jaqueta no mancebo da sala e fosse embora da nossa casa.


Me lembro de ser inundado pela força da chuva, sentindo o impacto de cada gota contra a minha pele. Saí apressado e furioso, o chiado lá fora era tão forte, que não conseguia ouvir sequer meus passos no chão. Minha mente foi assaltada pelos sentimentos de ira e dor, estava cansado daquela situação, aquilo já se repetia a meses e por mais que falasse com você, nada mudava.


Tentava me acalmar de alguma forma, espairecer a mente, mas a todo momento, ouvia em minha mente suas palavras duras e sem razão, sentia o ardor das gotas batendo violentamente contra minha face, fazendo a situação piorar cada vez mais.


Me lembro de ficar resmungando frases inteligíveis, praguejando sua vida e sua existência. Frases como “Por que eu ainda estou com você? Por que eu ainda tento?” eram repetidas da boca pra fora. Queria te matar, ou me matar, não me lembro ao certo quanto a esta parte.


Tropecei em um desnível da calçada e fui de boca para o chão, meu corpo estava rijo por conta da chuva e senti uma dor aguda por todo o corpo. Me lembro de passar a mão no rosto para limpar a sujeira que ficou presa no meu rosto. Olhei para minha mão e vi aquele liquido carmesim escorrendo e diluindo na água. Comecei a esmurrar o chão descontando todo o ódio que estava dentro de mim no cimento e a cada soco, uma praga era dita, junto com algumas gotas de sangue que escoriam pelos meus lábios.


Levantei rapidamente e num frenesi momentâneo, gritei. Soltei um urro que fez minha garganta doer, meu corpo todo tremeu com aquele ato e então, liberdade. Minha mente estava silenciada, meu coração mais calmo e a chuva havia amenizado. O que eu ouvia era apenas o gotejar das calhas e das copas das arvores. Me lembro de me sentir leve novamente, o maxilar não mais doía e a cabeça não latejava mais. Já meus punhos estavam pulsando ainda, um corte aberto em uma das falanges e o sangue vertia lentamente.


Deslizei a mão para pegar meu celular que por um milagre não havia dado pane por conta de tanta água que deve ter bebido. Comecei a digitar uma mensagem para você vagarosamente pois meus dedos doíam, cada letra martelava na falange, mas ainda sim, insisti em escrever ela.


Não me lembro de muito mais depois disso. Um relâmpago ou um farol de carro? Um trovão ou o derrapar de um carro? Não sei...


Só me lembro de te ver em sua cama, sozinha, chorando copiosamente, com o meu celular na mão, exatamente na tela de mensagens lendo aquelas três palavras que não foram e nunca seriam enviadas.


Por Ítalo Guimarães

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