• Lampião a Gás

Mãe de misericórdia


Do alto da torre de vigilância, o soldado lançou um olhar para o horizonte, vendo nuvens negras e carregadas se aproximando. Deslizou a mão pelo bolso da calça, sentiu seu maço de cigarros e sacou um que estava todo amassado, acendeu-o e observou o campo de batalha lá em baixo.


Uma chacina aconteceu recentemente, um embate contra o exército inimigo que custou uma baixa considerável na guarnição, homens feridos no chão agonizando e gritando de dor, sendo recolhidos pela diminuta equipe médica daquele exército. Aqueles que estavam em um estado muito complicado eram salvos de uma maneira cruel, porém eficaz, os médicos e outros soldados libertavam os muitos moribundos da dor e da agonia com a morte.


Tudo a sua volta cheirava a fogo, pólvora e morte, tudo era cinza e sem vida.

Com tanto tempo naquela guerra acabou adquirindo traumas, pesadelos e alucinações. Sonhava a noite com aquelas visões da guerra, estava louco e queria a morte, mas jurou para si e para sua família que não se renderia e lutaria até que a morte viesse buscá-lo. Viu todos os seus amigos da quadragésima sétima infantaria serem mortos em batalha, mas ele se manteve vivo. Viu novos grupos chegarem para dar reforço para aquela luta, fez novos amigos, criou novos laços e, mais uma vez, eles foram rompidos. Também viu estes novos amigos serem mortos em batalha de forma fria e inescrupulosa.


Já estava a mais de dois anos ali, atuante na guerra em seu posto de vigília como atirador de elite. Nesse meio tempo acabou ganhando uma nova amiga, uma mulher que só ele via e só ele ouvia, uma figura materna que fazia-o aliviar toda a pressão da guerra e toda a dor que sentia. Ela estava ali para evitar que ele sucumbisse a loucura plena, chamava-a de “Mãe de misericórdia”.


Recostado sobre a parede, com seu fuzil de longo alcance ao seu lado e com metade do cigarro já queimado, sentiu um arrepio passar pela nuca e uma pressão delicada em seu ombro, sabia que não estava mais sozinho na torre:


- Dia difícil o de hoje…


A voz daquela mulher era calma e serena, aveludada e acalentadora, como a de uma mãe embalando seu filho para dormir.


- Sim, tivemos muitas baixas hoje. O inimigo está investindo cada vez mais forte sobre nós. Estamos todos matando e morrendo em uma escala que não dá para compreender.


- É o seu trabalho… você foi convocado para isso, não está fazendo mais do que o seu trabalho.


Ele deu uma risada de deboche e deu mais um trago em seu cigarro:


- Quando eu vim pra cá, eu achava que estava vindo para fazer o certo. - disse ele levando o cigarro a boca e dando um longo trago. - Mas agora, bem, agora não tenho tanta certeza do que estou fazendo e me pergunto, por que estou aqui?


- Você é um soldado, está aqui para matar, tal como seu treinamento ensinou.


- Que Deus me perdoe pelo que estou fazendo…


- Meu querido, aqui é um lugar abandonado pela graça divina – ela se sentou ao seu lado, colocando a cabeça em seu ombro e a mão em seu peito – Deus não pode te ouvir aqui.


Ele chacoalhou a cabeça em negação:


- Não posso pensar no que já fiz…


- Quando isso acabar, você voltará como herói da nação.


- Você me diz o que é certo, mas eu te direi a verdade. - o soldado deu mais um trago em seu cigarro e continuou a falar de forma ríspida. - Isso aqui é uma causa perdida, sem esperança de retorno, fomos mandados para cá como porcos para o abate e a cada momento estão mandando mais porcos para esse matadouro infernal.


- Pelo menos você é sincero…


- De que vale a sinceridade aqui se onde em todo lugar a morte está próxima e só existe crueldade?


Nada mais foi dito.


Por alguns instantes, era apenas ele e ela naquele posto do vigia, até um forte barulho de trovão ecoar por todo o local. A chuva estava cada vez mais próxima e prometendo fazer um estrago enorme naquele campo de batalha, ela se recolheu ainda mais no peito do soldado clamando num tom levemente tristonho:


- Isso não é um bom sinal…


- Não mesmo, terreno enlameado, buracos escondidos. Será um verdadeiro caos.


- Seus inimigos estarão encrencados na sua mira, tudo ficará mais fácil para você agora.

- Não só meus inimigos, mas também meus aliados, temos homens no terreno lá embaixo, não há lugares para se esconder e procurar cobertura. Rios de sangue vão fluir junto com água da chuva que está por…


Antes que terminasse sua frase, uma cortina d’agua se fazia diante dos seus olhos. Gotas quase do tamanho de projéteis despencavam do céu com força, encharcando o solo e o chão de onde estava o soldado e sua louca companhia.


Os soldados que no terreno baixo largaram o que estavam fazendo e foram para dentro do quartel, cadávares foram deixados para trás e moribundos ainda agonizavam no chão, sentindo a gélida chuva cair intensamente sobre seus ferimentos, trazendo o alívio para uns e mais dor para outros.


Os dois ficaram em silêncio durante horas e, de tempos em tempos, ele puxava um cigarro. Estava quase dormindo embalado pelo barulho da chuva e pelo caloroso abraço daquela mulher, quando viu pontos no horizonte, tentando se esconder nas nuvens negras que cobriam o céu, se levantou apressado e pegou seu rifle, mirou naquela direção para ver melhor o que era aquilo. Viu helicópteros com armamentos pesados indo em sua direção, apontou para o solo e viu uma enorme infantaria de fortemente armada que marchava de forma sincronizada sob a chuva.


Seu coração começou a disparar, tirou o olho da mira e olhou para baixo, vendo todos aqueles corpos no chão e se lembrando da pouca guarnição de soldados que tinha. Sentiu o toque macio sobre o ombro novamente, seguido daquela voz quase angelical:

- A hora sua hora negra chegou… Preparado para mais uma investida?


- A última investida, você quer dizer.


- Você já disse isso tantas vezes...


O Soldado foi até o fundo da cabine, apertou o botão do alarme e o grito das sirenes se misturam com o chiado da chuva, chamando seus soldados para a guerra. Lá em baixo os soldados começavam a correr e tomar seus lugares nas linhas de batalha:


- Acho que é um adeus, então. - disse ele olhando para sua esquizofrênica companhia.

- Sim… Sua hora está próxima, mas nunca se esqueça de quem você é…


- Eu sou apenas um soldado solitário lutando em uma guerra sangrenta e inútil. Não sei o que estou combatendo, contra quem ou pelo que estou lutando. Farto de toda a matança e do fedor de morte, pensei que fosse pelo dinheiro, para fazer minha fortuna, agora não estou tão certo disso, pareço apenas ter perdido meu caminho, mas agora… - Ele olhou para sua esquizofrênica companheira com a face exausta, mas com um brilho no olhar. Engatilhou sua arma, tomou sua posição e completou, sentindo o manto negro da morte envolvê-lo - ...parece que finalmente encontrei meu destino.


Por Ítalo Guimarães

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