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Música para Protestar - Um manifesto


Há alguns dias, um supergrupo brasileiro se reuniu com a ideia de fazer música de protesto. Não é preciso ser um sábio para entender que esta menção é ao trabalho do grupo Revolta. Mas é incrível ver o número de reações contrárias, e mesmo ofensas que o grupo recebeu, e particularmente, o atual macarthismo no Brasil os rotulou como “esquerdistas”, “comunistas”, “vai-pra-cubistas” e outros argumentos planos e rasos. Nisso, tive uma epifania no sentido de perguntar: desaprendemos a lidar com letras de protesto dentro do Metal, e mesmo do Rock?

Letras de protesto no Metal, e mesmo no Rock, não são algo recente. Basicamente, desde que os jovens começaram a procurar a diversão como uma válvula de escape dentro de uma sociedade barra pesada (em termos de conservadorismo) nos EUA nos anos 50 (duros anos do Macarthismo), o Rock já se mostrava uma forma de protesto (querer se divertir em uma sociedade moralmente engessada pode ser visto como tal).

É preciso dizer que o Metal herdou muito do espírito hippie dos anos 60 sobre a questão de protestar. No fundo, o ato de protestar é comum dentro da sociedade humana, e se tornou mais evidenciado após a introdução das ideias do Iluminismo, pois devido à valorização do ser humano, começam as reações contra os abusos e maus tratos por parte dos governantes. O “direito divino dos reis” começa a cair por terra, assim como a questão da incontestabilidade dos líderes, que antes eram considerados escolhidos por Deus para governar os povos (e assim, incontestáveis). As pessoas aprenderam a dar voz a sua insatisfação, a reagirem quando o governante come lagosta e o povo passa fome, entendendo que “sem povo, não há estado”. Basicamente, protestar na música é algo antigo; mas pelo visto, alguns novos reacionários querem suprimir isso em um fanatismo sem nexo. É, sem nexo, embora uma boa parte dos que protestam acabe justificando a reação (não é o que se diz, mas como se diz).

Se olharmos os anos 60, muitos músicos cansaram de se expressar contra a Guerra do Vietnã e direitos civis de igualdade. Seria basicamente onde o Rock ganha sua versão mais militante em termos de protestos, embora (como já expresso acima) o Rock como um todo possa ser encarado como tal. Explicando às claras: a juventude norte-americana dos anos 50 (quando o estilo explodiu comercialmente) queria apenas viver e se divertir. Isso era uma consequência da Segunda Guerra Mundial, pois foi quando as pessoas perceberam como a vida era curta e frágil (pode-se dizer que quase todas as famílias dos EUA tiveram um morto na guerra, algo triste, embora alguns achem que uma medalha e uma bandeira signifiquem algo). Por isso, a fuga dos padrões ultraconservadores da época, especialmente do punho repressor do macarthismo (que caçava comunistas imaginários).

De lá para cá, o Metal surge e herda a arte de protestar.

Basicamente, o próprio Black Sabbath mostrava isso em “War Pigs”, e de uma forma subjetiva, muitos de seus clássicos são protestos (“After Forever”, “Children of the Grave”, “Sabbath Bloody Sabbath” e tantas outras podem ser vistas assim). Sim, botar a boca no mundo sempre esteve na música pesada. E isso não é questão de ser direita ou esquerda, mas apenas de ser racional. Querer desacreditar o pedido por igualdade e protestos por isso é, no mínimo, se mostrar incapaz de saber como o outro se sente.

Óbvio que muitas vezes, o uso das palavras em declarações não é o mais correto para expressar essas ideias, causando reações negativas em pessoas erradas (ou seja, aquelas que não são o alvo). No fundo, é preciso se expressar de forma clara e objetiva, mas sábia, pois tudo aquilo que este defende pode ser perdido com a escolha errada de palavras. Um bom exemplo é uma conhecida banda de Hardcore brasileira que sentou o porrete nos fãs “de direita” há alguns anos, e ali se permitiu o crescimento de uma onda contra tudo que eles mesmos pregam. Foi dar aos detratores munição mais que suficiente.

Ainda: a reação, muitas vezes, beira o tragicômico. O mais comum de ser visto: o famoso argumentum ad hominem (ou seja, argumento contra a pessoa, ofendendo o artista por algo, e fugindo da ideia), o que mostra o quanto estas pessoas são incapazes de conversar ou mesmo entender algo que está fora de sua esfera de conhecimento. E me perdoem a sinceridade: não adianta ter diploma de Ensino Superior, ou mais elevado, se não sabe defender uma ideia sem usar a falácia acima descrita. Exemplificando: não adianta querer atacar a administração do PT (que cometeu erros demais) para defender o atual mandatário. Isso é tosco e grosseiro, e eu apenas penso que essas pessoas deveriam rasgar os próprios diplomas se fazem isso.

No mais, questiono como pessoas que cresceram ouvindo canções como “War Pigs”, “Nazi Punks Fuck Off”, “Critical Mass”, “Independent”, “Why”, “Master of Puppets”, “Holy Wars” e tantas outras ainda se choquem com protestos. Se isso está acontecendo, é melhor tomar cuidado, pois algo está crescendo em seu coração que precisa ser extirpado: o ódio. E se você usa o ódio para apologias, está nas mãos do mestre dos fantoches.

Aliás, ir contra bandas que protestam contra algo é ser igual ao PMRC nos anos 80: censura à liberdade de expressão. Dou-me o direito a usar uma frase bem conhecida: “Eu discordo do que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo” (de Evelyn Beatrice Hall, erroneamente atribuída a Voltaire, conhecido pensador do Iluminismo).

Aí sim é hora de perguntar: como alguém que sofreu perseguição e censura quer hoje censurar os outros? Não adianta nada querer louvar o discurso de Dee Snider na Corte Americana em prol da liberdade de expressão, e pedir um novo AI-5 no Brasil.

Seja você mesmo, desligue esses “pre-sets” que tem no cérebro, e aprenda a ter um pouco de respeito pela liberdade de expressão dos outros. Ela não é só para você.

Há alguns anos, escrevi isso em um artigo, e vejo que necessito fazê-lo uma vez mais: infelizmente, diante de tantas manifestações de ignorância e ódio, vejo as câmaras de gás e os fornos de Treblinka, Bełżec e Sobibor funcionando mais uma vez. Mas com tanto ódio, quem serão os que serão sacrificados nesse novo genocídio? Se você conseguiu pensar em uma pessoa que seja, você é um imbecil. Sim, você justifica a morte de pessoas diferentes para que seu mundinho imaginário perpetue. Enquanto a política te beneficia, vale tudo. Mesmo vidas preciosas...

Encerrando: todo protesto é válido, pois é a voz de quem se sente lesado em alguma situação. É preciso sair da caverna para ouvir, e um pouco de fraternidade para se entender a dor alheia, uma dor que ninguém merece passar.

P.S.: Gostaria apenas de deixar algo claro ao leitor. Não me considero de esquerda ou direita no sentido brasileiro atual. No fundo, no amplo espectro político, me vejo como um centrista que apoia certa liberdade econômica, mas ao mesmo tempo, acha que é necessário que existam avanços sociais. Mas não adianta: vão me chamar de “comunista”, “petralha”, “fascista” ou “neoliberal” de qualquer jeito mesmo...

Por Marcos Garcia

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