• Lampião a Gás

Panda Reis: vou continuar no front...


Muitas vezes acontece de irmos entrevistar uma pessoa que admiramos e essa entrevista acabar se tornando muito mais um papo entre amigos. No caso do entrevistado da vez, isso já é meio recorrente e acontece há uns bons anos, e mesmo eu tendo o interrogado inúmeras vezes, a coisa descamba para muito além da pergunta/resposta, e por mais esta vez o papo seguiu seu rumo que vai muito além da música. E claro, essa é sempre a melhor parte desse trabalho. Confira!


Lampião a Gás: Para começar descreva aos nossos leitores o que é e qual a proposta da banda Quilombo.

Panda Reis: Salve amigos e leitores do Lampião a Gás! Então, a proposta da banda é falar de momentos e questões históricas de uma perspectiva diferente do habitual, não digo com isso que somos os donos da verdade, apenas que os assuntos que abordamos, seguem uma linha de estudos e entendimentos muito longe do convencional euro centrismo, quero dizer que a banda tem na parte lírica questões históricas de etnias excluídas, perseguidas e discriminadas por séculos. Queremos que o ouvinte escute nossa música apenas como pano de fundo para entender as letras, que tem bases históricas atuais e estudos, algumas vezes profundos estudos e pesquisas em cima disso e quando falo pesquisa, não falo do superficial, falo de artigos acadêmicos, tendo em vista que o material que serve de base para as letras, são materiais acadêmicos de historiadores afrodescendentes pelo mundo. Já a música. Bom, é só um Death Grind, porém com instrumentos africanos inseridos nele.


LAG: Percebo que existe um estudo aprofundado nas questões abordadas pela banda, como tem sido a aceitação e compreensão desde o lançamento do EP "Itankale"?

Panda: Esse estudo existia antes mesmo da banda sequer pensar em existir, e foi algo que resolvemos inserir na banda, já que toda a pesquisa já estava sendo feita para outras intenções, no caso acadêmica. Sobre a aceitação eu não sei. Não fico vendo quantos likes tem ou quanta gente baixou o disco, a única noção que eu tenho é sobre a versão física, que já se esgotou uma vez e parece que está no final de novo da nova prensagem, se os bangers compreenderam eu também não sei, mas acredito que sim, pois tivemos o cuidado de facilitar as coisas, usando termos mais comuns e uma linguagem não técnica, para as pessoas entenderem, a não ser nas partes em Yoruba, mas para isso tem as letras no encarte (risos).

(NE: Yoruba um idioma da família linguística nígero-congolesa falado secularmente pelos Iorubás em diversos países ao sul do Saara, principalmente na Nigéria e por minorias em Benim, Togo e Serra Leoa)


LAG: Além disso é latente a constante luta para reeducar o brasileiro na sua percepção das pessoas de raças e culturas diferentes, mesmo que isso esteja enraizado e presente no seu dia a dia, esta seria uma preocupação sua e da banda?

Panda: Reeducar? Irmão é educar mesmo, no sentido literal da palavra, pois o povo brasileiro nunca foi educado, basta ver a diferença da metodologia de se ensinar nas escolas da elite, e eu nem falo das escolas particulares para a classe média, falo das que formam os filhos da elite burguesa mesmo, a escola pública sempre foi pensada para manter o status quo, para não termos muita alteração social por aqui e em outros locais que foram colônias. Eeeducar seria se um dia a gente já tivesse tido alguma educação realmente igualitária e realmente libertária, mas não temos, a educação, e agora falo de ambas, ela serve para manutenção do sistema e com isso nunca se interessou em discutir etnias, raças, culturas, então essa “libertação intelectual” nunca veio dos bancos das escolas formais.

Mas não vejo a banda como uma ferramenta educacional para marmanjos, até porque tenho a impressão que os lados estão muito bem definidos, e não seria letras de uma banda underground, por mais que tenham pesquisas acadêmicas e assuntos baseados em fatos reais e estudos consistentes, que vai levar luz para quem escutar, talvez uma ou outra pessoa possa se interessar e correr atrás ou possa pensar melhor sobre o assunto, então a preocupação da banda é apenas falar do que temos conhecimento de causa, e, de verdade, estamos cansamos de ver muita gente falando merda sobre assuntos que nem conhecem.


LAG: O que você acha de movimentos sociais que lutam contra o racismo e pela igualdade social e de direitos para todos, seria esse o caminho para desmembrar pensamento retrógrados e que não cabem mais neste mundo?

Panda: Qualquer luta, movimentação e reunião em prol do social é importante, pois se a maioria está preocupada apenas com o próprio umbigo, é fundamental que tenhamos pessoas envolvidas nessa luta altruísta, pois seja qual for a linha de luta, é válida, por mais que pareça que estamos perdendo a guerra, esses movimentos plantam sementes fundamentais para o futuro. São mais que necessários, em qualquer lugar do mundo e ao meu ver deveria ser internacional e não apenas preocupadas com problemas nacionais, claro que o momento no país mais que necessita de uma maior atenção, mas sem perder do radar todos os excluídos do mundo.


LAP: Você atua, com outros parceiros no Projeto Coyote Vive! Conte para nós o que é este projeto e quais são os seus objetivos.

Panda: Sim, é um prazer fazer parte desse coletivo, que é de orientação horizontal e plural, tem de tudo na organização, ateu, muçulmano, cristão, anarquista, comunista, só não aceitamos direitistas, bolsonaristas e essa corja racista e fascista.

Somos um coletivo que visa a educação, a valorização e divulgação do povo preto, dos LGBTS, o feminismo e todas as camadas sociais excluídas do sistema preconceituoso. Através de reuniões, ações e intervenções educativas e de conscientização nas periferias, a gente vai dialogando, primeiro com nosso povo, é de tabela com os brancos excluídos e que perceberam que a luta antirracista é a luta de todos nós, que é humanista e valoriza a vida e o próximo, enfim, somos uma resistência nos guetos de São Paulo, fazendo aquele velho trabalho de formiguinha, focamos na educação infantil porque são as crianças que efetivamente podem mudar algo por aqui e no mundo.


LAG: E muito gratificante perceber a emoção nas suas palavras. O projeto atua primordialmente na Zona Sul de São Paulo, mas estende seus tentáculos a outras comunidades que precisam dessa atenção e boa vontade, como tem sido a aceitação do projeto em outras localidades?

Panda: A gente atua em todas as periferias possíveis do Brasil, presencialmente só foi no extremo sul da Zona Sul e Leste, mas temos contatos em várias periferias do Brasil.

Com a pandemia estamos fazendo umas lives, que é o que dá para fazer no momento, apesar de não ter aquele calor, aquela proximidade, acaba atingindo mais gente, pois tem gente que queria ir aos nossos eventos, mas que não ficam muito a vontade de entrar em favelas, becos e vielas , então virtualmente muita gente acabou tendo contato com o projeto, mas claro que eu prefiro o presencial, sentir a energia das pessoas, ver as expressões e a troca de conhecimento que só acontece cara a cara, não que virtualmente o conhecimento não é passado, mas frente a frente outras questões surgem e novas trocas são feitas espontaneamente ali na hora

Temos um clube de leitura que inauguramos durante a pandemia, e está indo muito bem, já temos uma galera e já fizemos debatemos sobre dois livros que abordam o racismo e o antirracismo e já iniciamos a leitura de um terceiro. Essa troca de conhecimento e pontos de vistas tem que ser eternos, irmão.

LAG: Mudando de assunto, mas ainda falando em tradições, como anda a Oligarquia? Panda: A Oligarquia tá meio que de férias, depois da ida do nosso guitarrista Pancho, para a gringa e do afastamento do nosso baixista, Artour, por questões particulares, resolvemos dar uma pausa e nos dedicarmos a outros projetos e bandas. No final do ano passado o Artour quis retornar aos ensaios e o fizemos, retomando e seguimos ensaiando até que veio a pandemia, e isso nos afastou novamente e sinceramente agora nem sei como será! Provavelmente não nos encontraremos mais este ano, não para ensaiar e essas coisas, mas somos realmente amigos e estamos loucos para nos ver, conversar, nos abraçar, tocar juntos, sei lá. Talvez ano que vem. Até porque temos um disco novo gravado, com arte pronta e tudo, mas também não sei se lançaremos esse disco no ano que vem e se algum dia ele verá a luz do dia.


LAG: Para mim é estranho ouvir isso de você, já que, quem tem conhecimento, por pouco que seja, do mundo da música pesada nacional, sabe da importância e relevância do Oligarquia para ela. Será que um dia a gente deixa de ser o pais onde só existem Sepultura, Angra e Krisiun?

Panda: Importância? Relevância? Será que isso realmente vale alguma coisa em meio a um cenário rachado dividido cheio de fascistas, racistas que a cada dia vem saindo do armário? Será que para mim é relevante ver esses merdas que se dizem bangers, e ver que diariamente as máscaras caírem, curtindo a música que eu faço? Será que eles nunca entenderam porra nenhuma do que cantamos por todos esses anos? Será que realmente alguma banda underground aqui no Brasil tem a importância que você cita aí?

Eu não enxergo a Oligarquia com essa importância toda, na verdade a banda sempre foi aquele filho bastardo da cena, até mesmo por culpa nossa, talvez até mais minha, pois desde sempre mantive uma postura extremamente antipática as mídias monopolizadoras do underground, gente como as revistas que mais parecem catálogos de anúncios, sites empresas e toda a micro indústria que replica no underground as metodologias do mainstream. Então, sempre escolhemos o lado mais underground do underground e nunca aceitamos as panelas que existiam desde o início da banda e da cena. Sou um cara difícil e levo muito a sério a maneira que eu vejo as coisas que faço, a capitalização do underground, cachês, entrevistas arranjadas e sem o devido direcionamento nas perguntas, não vejo nada disso como algo positivo e sempre me afastei muito disso, com isso a Oligarquia foi ficando cada vez mais cult, então a Oligarquia pode ter relevância apenas para uma parcela bem restrita de pessoas no underground e na real eu quero que se foda o caminho que o metal caminha agora, tô fora de ser relevante para uma “pá” de fascista, racista, homofóbico, xenofóbico e machistas de preto. Essas bandas que você citou, sim são relevantes, mas por que será irmão? Não acho que tenhamos outro representante nesse porte, o mundo está muito diferente e até as metas das bandas e músicos tendem a mudar, ainda mais pós pandemia.


LAG: Então essa visão mainstream que o underground quer para si, se torna a grande muralha que impede uma visão mais ampla do todo?

Panda: Não necessariamente, mas acho que nos coloca na posição de medíocres na música brasileira, um estilo underground que sonha ser mainstream, mas caralho, isso é impossível em um país musical como o Brasil, falta acordarem do eterno sonho euro centrista.


LAG: Seria então falta de visão? E isso certamente está ligado diretamente educação recebida pela população que você citou anteriormente?

Panda: Tá tudo ligado irmão, eu acho muita falta de visão as pessoas que insistem em querer separar música e a arte da política, nada pode se separar da política, pois nada é uma ilha e tudo depende da situação política, da situação social e da situação ideológica do País, a falta de visão nem é em relação ao underground e ao Metal, seria injusto se generalizasse, pois existem estilos dentro do underground que romperam com o sistema há décadas e sobrevivem muito bem sem ele e sem fazer média com isso, e sequer sonham com uma possível aceitação artística nacional, esses sabem quem são e o que representam. A educação é necessária sim, mas para libertação intelectual, política e social, seria necessário um outro tipo de educação, com outros valores e metodologias, mas enquanto o capitalismo desenfreado, o racismo, o fascismo, as vaidades e egocentrismo fizerem parte da sociedade, não teremos uma visão mais clara do que realmente é isso aqui ou de como as coisas acontecem. Mas não precisa muita visão para ver coisas óbvias e no Brasil eu nunca vi um período em que as coisas estão tão óbvias.


LAG: E sobre esse momento adverso de isolamento social, você acha que mesmo com todos os números contra nós, o brasileiro se reinventa?

Panda: Esses números estão contra nós por causa da gente mesmo! Que saímos sem máscara que insistimos em não fazer o isolamento, que fazemos churrascos e festas, que voltamos as aulas por causa do custo das mensalidades em escolas particulares e por causa da pessoa que colocamos na presidência deste País e que vem jogando terrivelmente contrário a OMS e a todos os países que mostraram o que fazer para poder conter a pandemia. Estamos contra nós mesmos, irmão! Agredindo motoristas de ônibus que pede para você colocar a máscara, agredindo recepcionistas em prédios que pedem para você usar a máscara corretamente, fazendo tumulto na rua 25 de Março e nos shopping, e pior, elegendo e mantendo governos medíocres nas esferas federal, estadual e municipal, temos um parlamento que seguem a regra do jogo tupiniquim e governam apenas para manter os privilégios e poder da classe política, os números contrários fomos nós que plantamos, desmatando em tempo recorde a Amazônia, arrumando problemas comerciais por questões ideológicas e com declarações infelizes e xenofóbicas” Estamos todos contra nós mesmos desde antes da pandemia. O brasileiro precisa se reinventar mesmo e urgente, mas não por questões pandêmicas, mas por questões de problemas seculares que nunca foram resolvidos, falo de problemas como racismo estrutural e constitucional, machismo e feminicídio que impregnam nossa sociedade, nosso caráter e nossa consciência de classe! De verdade, precisamos nos reinventar como povo, como pessoas, para depois inventarmos uma nação. Essa pandemia só expos as nossas feridas abertas.


LAG: Um amigo em comum, Daniel Sousa, me disse esses dias: A grande diferença de hoje, para todos os anos passados é que agora estamos enfiados em casa, porque na questão monetária estamos tão fodidos quanto antes. O que você me diz dessa colocação?

Panda: Cara, de verdade eu não vejo tão simples assim, depende do ramo que se atua, pois tem muita gente aqui na favela que está mais fodido que antes, vejo nas ruas aqui da cidade duplicando a quantidade de moradores de ruas, milhares de casas com placas para alugar.

Acho que é um debate que deve ser mais refinado, pois uma pandemia - então é global - atinge a economia e bolsas e em um mundo capitalista globalizado - a globalização é capitalista/monetária e não étnica e entre povos e culturas - onde os países "donos do sistema" sofrem baixas financeiras por conta da impossibilidade de exploração de mercados, natural que a crise caia nas costas de países mais pobres, em ex-colônias de exploração.

Já notou isso? Todos os países mais pobres foram atingidos e sofreram com isso e o povo mais pobre desses países pobres se foderam, e isso vale para nós também! Um sujeito que trabalha em um escritório, foi para o home office, um faxineiro de restaurante está desempregado. Mano, o assunto é bem complexo e levaria umas dez entrevistas inteiras para chegarmos em um mínimo de entendimento.


LAG: O que podemos esperar de Panda Reis daqui para a frente com bandas, intervenções sociais e tudo mais que eu sei que você faz?

Panda: Mano! Eu nem sei como vai ser o mundo daqui por diante. Muitas coisas devem ficar diferentes e como sempre quem tiver mais dinheiro vai se adaptar primeiro, então eu pretendo continuar com o que está sendo feito nesses tempos de pandemia, não pretendo tocar ao vivo antes que seja seguro para todos e não apenas para as bandas. Talvez terminemos a mixagem e masterização do disco da Oligarquia, mas confesso que nem pensei nisso ainda. Já a Quilombo está criando as temáticas para um novo trabalho, mas está tudo no começo, ainda estamos nas conversas e não nos instrumentos, as demais eu nem sei o que vai rolar, só as gravações de uma nova banda que aceitei gravar com eles, mas ainda estamos nos ensaios.

A parte do social eu vou continuar forte, pois isso faz parte de mim e eu acho muito mais importante do que qualquer banda que toco ou toquei, entende? Vou continuando no lado B do underground e na subversão de um Estado cada dia mais anti-pobre, anti-preto, anti-mulher, anti-LGBT, anti-refugiado, e sendo assim e sendo eu, quem me tornei, não tem como não continuar com isso, no front! Com pandemia ou sem pandemia tem gente morrendo todos os dias, por tudo isso que citei.


Serviço: www.facebook.com/Quilombometal

www.facebook.com/oligarquiadeath

www.facebook.com/coyotevive


Por JP Carvalho

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