• Lampião a Gás

Ser pais headbangers - O desafio das novas gerações



Uma das experiências que todos deveriam ter é ver o vídeo do Twisted Sister para “We’re Not Gonna Take It”. E aconselho que o veja antes de ler este artigo, pois há uma consonância entre o que tenho a dizer e aquilo que nele se vê.


O que quero dizer: ali está a típica família de classe média norte-americana do final dos anos 70/início dos anos 80. Aliás, é muito similar à família tradicional brasileira de classe média daqueles tempos. E quem viveu aqueles tempos, gostando de Metal e Rock, sabe a barra que foi aturar certas coisas.


É, não foi molezinha, e não vou falar das dificuldades externas, mas da questão mais interior, e a que mais causou (e ainda causa) sofrimentos aos mais jovens: a família. Até hoje, me preocupo demais com as crianças e jovens, pois são os adultos do futuro que estão em formação. E não gostaria de saber que estão criando um bando de TFPs para ser a “família de bem” em alguns anos.


Como era comum nos anos 80, venho de família de classe média/baixa. Quando o Brasil reentrou na democracia, depois de 21 anos de um inferno de repressão, eu tinha 14 para 15 anos. Óbvio que os últimos anos dos militares foram mais brandos, mas mesmo assim, havia muita pressão social sobre todos nós. E digamos de passagem: NINGUÉM tinha que carregar esse peso nas costas!


Imaginem: eu estava em plena adolescência, vivendo agitadamente. Normal, já que os jovens são assim. Mas foi muito difícil, era um tempo de cisão: de um lado, minha geração, que queria viver, e muito intensamente, já que ainda existia a ameaça de uma guerra nuclear por conta da Guerra Fria (e o fim poderia vir a qualquer instante); do outro, os pais e pessoas de mais idade, que haviam vivido períodos bem difíceis. Mas é preciso entender: o passado não volta atrás, e nem deve (apesar dos ultraconservadores quererem derrubar a Relatividade de Einstein, que deve ser mais um “comunista” na lista negra dos TFPs da vida). Com erros e acertos, é para o futuro que se anda. E o ser humano deve se adaptar aos novos tempos, deixando para trás o que não presta. Não é uma questão de moralidade, mas algo que devemos fazer.


Exemplo: em minha adolescência, era comum o pensamento de “o trabalho inibe os vícios”, e cansei de ver colegas meus (de idade e de classe social) jogados em fábricas e comércios por este medo de um “maconheiro”, “drogado” e “viciado” na família. Na realidade, esse pensamento deve ser reescrito como “o filho do pobre estuda para trabalhar; o do rico para ser doutor”, algo que atormenta o Brasil desde seus tempos de colônia. A verdade é: os senhores do poder não querem ter que dividir “seu” espaço, ou que os filhos disputem com o filho do pobre. É, é exatamente isso. Não há argumentação TFP ultraconservadora que iniba a verdade dos fatos, algo que os cientistas já cansaram de provar. Ou alguém acredita que todo filho de rico é inteligente, e todo filho de pobre um bocó? Ou por que será que todo riquinho se revolta com o nome de Paulo Freire, sem saber uma vírgula de suas ideias, propostas e mesmo de educação?


Se acredita que estou errado, VÁ À MERDA e pare sua leitura por aqui.


“Ah, mas no passado era melhor” e um monte de lixo ideológico em uma torrente de fezes orais são frases associadas à ignorância inerente de muitos. Conheço advogados que defendem essas coisas.


Minha geração no Metal sofreu demais, muitas perseguições a quem só queria ouvir música. Mas lá estava o FILHO DA PUTA TFP ultraconservador para perseguir um bando de garotos (queria que tentassem hoje, pois deixa-los de boca fechada é sempre um prazer, ou mesmo eles tentando forçar a barra com argumentos errados). Por que acha que usávamos símbolos agressivos, camisas e desenhos que assustam qualquer um? Usar uma cruz reversa, uma estampa com um capeta ou cantar aquelas letras era um sinal da rebeldia do jovem, mas ao mesmo tempo, uma forma de insultar e agredir os mais velhos. O mais engraçado: muitos de nós éramos religiosos, mas gostávamos do que fosse ultrajante, de “causar” como dizem nos dias de hoje. Era nossa forma de responder a tantas agressões.


Por isso, muitas vezes, pergunto: que tipo de pais meus colegas são?


Não sou pai, pois nunca me casei, mas sou aquele tio que dialoga. E mesmo às vezes cedendo ao meu passado ruim, sei me desculpar com meus sobrinhos (e sobrinhos-netos) e tentar refazer as coisas de forma certa. Mas pergunto cada vez que vejo um amigo meu, fã de Metal, e da minha idade, o que ele fez e anda fazendo nesse sentido.

E é aí que as coisas começam a ganhar corpo.


Muitos me fazem orgulhoso de uma educação bem dada, mais liberal e menos cheia de pressão social em cima dos filhos. Um que já pude perceber é meu amigo Panda Reis, outro é o JP Carvalho, o casal de outro de Mococa, Rodrigo Balan e Débora Brandão, e alguns outros, todos fãs de Metal e de “música subversiva”. Talvez, não tenho lá muita certeza, mas vem da noção de buscar antenado com o que ocorre no mundo. No passado, não há respostas para as questões do presente e futuro. Quem vive de passado é museu. Mas entendo os ultraconservadores: mudar as coisas significa ter coragem, e TFPs não têm isso. Eles temem o futuro, isso sim (novamente o exemplo das drogas: os pais tinham pavor do filho se tornar um usuário, mas nunca se perguntavam o que os mesmos tinham a dizer sobre o assunto, ou se aquilo era algo tão ruim que valesse marcar e relegar os filhos ao desprezo, como muitos fizeram).


E ao Pedro Bó TFP que está lendo até aqui (mesmo mandando ir à merda lá em cima), tem a ver com o futuro, entender que ninguém tem que viver pensando como seus pais, avós ou mesmo outra pessoa em sua árvore genealógica que deve estar ligado diretamente ao jumento que estava na arca de Noé.


Hoje, é preciso saber usar algo chamado diálogo. E isso é uma via de mão dupla: é preciso ouvir para ser ouvido; respeitar para ser respeitado; falar a verdade para ter a verdade. Como você quer evitar que o filho se meta em encrencas, se você nem entende que algumas dessas coisas são inerentes a ser criança e adolescente? Se ao invés de permitir que ele se expresse com confiança e verdade, prefere usar gritos e agressões? Nunca percebeu que é desse jeito que se joga o filho nas mãos daqueles de quem você deveria protegê-lo?


Aliás, antes de continuar, mais uma bicuda no ego TFP: muitos pais reclamam das amizades dos filhos; mas todos nós buscávamos nos amigos a compreensão do que estávamos vivendo. E isso tem um motivo que deveria abrir um questionamento no cérebro de muitos: os nossos amigos nos ouviam. Nossos pais, partindo do pressuposto que estávamos errados, nos julgavam e condenavam sem nem ao menos perguntar o que tínhamos a dizer. E muitas vezes, eles estavam errados, ou não sabiam de toda verdade!


Exemplo: em 1986, meu pai passou um feriado inteiro me escorraçando, sem eu nem imaginar o que estava se passando (e era um dia especial para mim, minha Primeira Comunhão). Um ou dois dias depois, chegando de fininho em casa, peguei minha irmã conversando com o velho, e o motivo dos coices que levei: a TV havia queimado. E ela estava explicando que a TV queimou com ela e o namorado vendo TV na noite anterior ao feriado (e eu já estava dormindo).


Ele (como todo bocó de seu tempo) pensou que fosse por causa de vídeo games (e eu nem jogava tanto mais, para ser sincero). Óbvio que eles me viram, mas cadê o pedido de desculpas ao sujeito que lhes escreve estas palavras?


Se fosse alguém humano, teria pedido desculpas. Mas um TFP ultraconservador é algo perdido na evolução entre a ameba e nossos antepassados primatas.


Muita rebeldia, muita amargura, eu sei. Mas isso tudo para dizer algo: fazer um novo tempo significa saber dialogar. Fazer a diferença para os filhos em termos positivos é saber compreender, conversar, e mesmo ter um psicólogo infantil ao lado. E para os fãs de pancadas e gritos histéricos, sinto muito: estas coisas servem apenas para reprimir o potencial daquela criança. Mas como eu disse antes, compreender isso é para quem é humano.


Assim, se é realmente quer um mundo melhor, aprenda a ser pai ou mãe na moda daquilo que esperava que o seus fossem para você. Se não quer, não tenha filhos, já que gente que tem a mente presa ao passado mais causa problemas e não merece ter uma linhagem.


O mundo não suporta mais idiotas...


Por Marcos Garcia

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