• Lampião a Gás

Spotify e as plataformas digitais - Empreendedorismo ou roubo?


Por: Marcos Garcia


Antes de tudo, é preciso dizer que, como pessoa, eu acredito no mercado livre e no fim de todos os tipos de monopólio possíveis. Mas certas coisas transcendem o que considero mínima e moralmente aceitáveis, como a declaração do CEO do Spotify, Daniel Ek, falando que um músico não pode gravar discos a cada 3 ou 4 anos. Basicamente, mais um a chamar os outros de vagabundos, sendo que o trabalho destes enche o rabo do cara.


Sou um entusiasta de novas tecnologias, e acredito que as plataformas digitais deram um “help” aos artistas independentes, para que seus trabalhos pudessem chegar mais longe. Por outro lado, desde que a pirataria começou no início do atual século, mais e mais os músicos foram sendo lesados, pois se diminuiu a venda de discos físicos. O demônio estava fora da garrafa...


Existem setores ideológicos que dizem que o download ilegal veio para libertar o músico da escravidão das gravadoras. Hoje, se olharmos a reação dos músicos à declaração de Ek, percebe-se essa palavra “libertação” perdeu qualquer sentido: se antes os músicos tinham que gravar discos de alto nível na época em que as gravadoras tinham controle, eles ganhavam muito dinheiro (olhem exemplos como Bon Jovi e Mötley Crüe); após o enfraquecimento do mercado pelos downloads ilegais, gerou-se a necessidade de adaptação ao novo modelo, e assim, nasceram os serviços de streaming de música. E antes mesmo de Ek meter os pés pelas mãos, já existiam várias declarações na imprensa que o Spotify não paga bem aos músicos.


No fundo, nesse mundo atual, as pessoas são guiadas por tendências: como o Spotify foi um dos primeiros, é o mais bem sucedido. E dificilmente tem concorrência, já que essa mania de ser tocado como gado é algo social, embora doentio. É aquilo: o amiguinho tem Spotify, lá vai o tapado virar assinante para ter um e não se sentir excluído. Definitivamente, gado no mais interior sentido do termo.


Não há erro na visão liberal. No fundo, Ek tem uma pontinha de razão: cada vez mais, os músicos têm produzido menos discos. Mas isso porque, para as bandas ganharem algum dinheiro e se manterem na ativa, têm que fazer mais e mais shows, e muitos, o que acarretou em baixar o valor do cachê. Hoje em dia, a agenda de qualquer banda é quase que de 5 shows por semana, algo às vezes inumano. Traduzindo em miúdos: Ek quer mais músicas (e mais dinheiro em seu bolso), e como o número de shows precissa ser mantido (quando não aumentado), o músico vira uma figura tragicômica que vai lembrar Chaplin em “Tempos Modernos”, ou seja, um escravo de um sistema injusto. Algo que um belo “vai se foder” tem um poder liberdador, mas que graças ao fã gado internético, o músico não tem como fazer.


Sim, o Spotify é uma plataforma injusta. Paga pouco às bandas (é a que paga menos), mas rende uma fortuna para seu dono. Tá, sei que ele oferece um serviço e cobra por isso. Mas PUTA QUE OS PARIU, vocês sabiam, babaquaras do Brasil, que este patife ganha grana de dois lados?


Soube que há um preço para colocar o disco “online”, e se recebe apenas o valor de US$ 0,00397 por audição em música. Se este valor está correto, um artista recebe isso por cada execução, logo, precisa de mais de 1000 para ganhar US$ 3,97! E se converter-se este valor pela cotação de hoje (13/08/2020), isso dá apenas R$ 21,36! Perceberam a insanidade, ou precisam de um belo F-O-D-A-S-E para sair dessa ideia tosca de “liberdade”? Hoje, o músico é mais escravo no que na época das grandes gravadoras. Aliás, existem depoimentos nesse sentido, como Steve Lukather do Toto, Michael Sweet do Stryper e alguns outros, e lembrando: esses dois exemplos são de músicos de muito sucesso.


Há uma matéria de 2019 que fala em valores em uma dissertação ótima, que até um dummy viciado em streaming pode entender: https://mundodamusicamm.com.br/index.php/digital/item/267-bastidores-do-streaming-saiba-o-valor-que-as-plataformas-como-youtube-spotify-deezer-e-apple-music-pagam-aos-artistas.html


Minha dica: em tempos de dificuldade, o empreendedorismo fala alto. Nisso, por que as próprias bandas não buscam usar seus meios de distribuir sua música digitalmente, sem uma plataforma? Quero dizer, existem bandas que usam players próprios em sites, visando justamente ter controle, e colocam seus discos à venda em sites como E-Bay e Amazon.


E a que eu prefiro: não adianta textão no Facebook reclamando! Bandas e músicos: eduquem seus fãs a consumir o formato físico e oficial!


É, voltar aos LPs, CDs e DVDs, a comprar material oficial com a banda, algo que aparentemente causa náuseas aos leites com pera da vida. Assim, não vai ter que esperar 1000 audições de sua música para ter um retorno. Os mais velhos (como eu) gostam de discos físicos, e pagam por isso. Eu mesmo prefiro converter meus discos em um formato digital para colocar no celular, sem ter que pagar assinaturas a serviços de streaming que não dão nem um centavo ao artista (e isso no sentido literal).


Baixo discos como qualquer um, e acabo pagando: quando gosto, lá vou eu adquirir o disco físico, algo semelhante ao que os bangers da minha época faziam com as fitas K7 (e muitos fazem até hoje); se não gosto, apago. Quando você paga por streaming, não está pagando ao artista.


Ah, sim: depois dessa declaração de Ek, me recuso a postar coisas do Spotify em meus reviews. Só posto vídeos porque quero mostrar o trabalho da banda, e os vídeos são feitos para isso, em uma época em que a MTV basicamente não tem tanto apelo comercial.


Finalizando: se você quer ajudar MESMO a banda ou artista de quem gosta, pague pelo disco físico dela, pois apoiar quem gostamos é coisa de banger. Se não quer, vai se foder com um cacto bem espinhoso, e não fique de mimimi’s e ain’s na internet.


Simples assim.


Nas Ondas do Novo Rádio é uma série de entrevistas e reportagens que trará a luz, informações sobre esse formato que vem crescendo de forma exponencial, senão em número, em qualidade e diversidade.

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